O Concurso de Cascatas de S. João na memória da cidade

A salvaguarda de um património

O Concurso de Cascatas de S. João na memória da cidade

Luís Martins Pisco, antropólogo

As cascatas materializam a imaterialidade da festa de São. João no Porto, com a sua iconografia, símbolos, locais e figuras que povoam o imaginário sanjoanino da cidade-cascata. Foi na Invicta que a construção de cascatas alcançou o seu maior esplendor e criatividade[1]. No ano e que passam 70 anos sobre a primeira edição do Concurso de Cascatas de São João, importa recordar a memória de uma das mais antigas acções de salvaguarda de uma expressão popular que, desde 2003, se enquadra no conceito de Património Cultural Imaterial.

JN19470620 As Festas da Cidade Concurso de cascatas

A primeira edição do concurso de Cascatas de São João, no Porto, realizou-se em junho de 1947, em simultâneo com um concurso de Sacadas e um Concurso de Montras. Participaram seis cascatas: Delfim Ramos, no Largo do Bom Sucesso; Fernando dos Santos Silva, na Rua do Heroísmo; José Cândido da Silva, na Rua do Bonjardim; Fernando da Silva Martins, no Largo da Fontinha; Firmino Reis, na Rua da Noêda, 38; e Silvestre Fernandes, no Quartel Guilherme Gomes Fernandes[2]. O Jornal de Notícias faz ainda referência a outras cascatas que não concorreram, localizadas na Rua do Lindo Vale, na Rua do Sol, nº14, na Rua da Glória e na Rua da Alegria[3] — a famosa cascata do Asilo de São João, que durante anos foi local de peregrinação sanjoanina de muitas famílias portuenses.

As cascatas possuíam os elementos apreciados pela política cultural da época, enquanto expressão do que se designava por arte popular. Impressionavam pelo seu tamanho e movimento, representando em miniatura uma cidade colorida, harmoniosa, pitoresca e rural, povoada por uma miríade de figuras e estereótipos populares. Mas, ao contrário dos desfiles etnográficos, marchas populares, casamentos de São João e outros eventos que preenchiam o programa das Festas da Cidade, faltava-lhes centralidade e vocação para atrair as massas. A sua dimensão e complexidade poderão ter dificultado a sua exibição no âmbito das exposições dedicadas à cultura popular promovidas pelos organismos públicos. As cascatas, como ainda hoje sucede, eram construídas de forma dispersa pela cidade. Em recantos, ilhas, bairros e ruas que na maioria dos casos não correspondiam ao ambiente popular e pitoresco idealizado pelo Secretariado de Propaganda Nacional/Secretariado Nacional de Informação. Aliás, a inexistência de referências ao concurso parece indiciar que este não teve continuidade nos anos seguintes.

O Concurso de Cascatas de São João voltou a integrar o programa de Festas da Cidade a partir de 1965, com o objectivo de incentivar as tradições populares da cidade que, alegadamente, se encontravam em risco de desaparecer. O regulamento elaborado pelo Município convidava os moradores dos bairros populares e membros de colectividades de cultura e recreio a construir uma cascata de São João em ”perfeita harmonia com a tradição popular”. A classificação atribuída pelo júri (constituído por um membro da comissão de festas, um jornalista e um etnógrafo) baseava-se em critérios como “(…) o respeito pela tradição, bom gosto e pitoresco observados na sua feitura e ornamentação (…)”, ao mesmo tempo que previa  a desclassificação de cascatas que fossem objecto de exploração comercial .

Também a atribuição de prémios avultados – 4 mil escudos para o primeiro classificado, 2 mil escudos para o segundo, e mil escudos para o terceiro e quarto classificados[4] – traduziam o empenho da edilidade .

Nesse concurso participaram seis cascatas localizadas no Bairro dos CTT, Cais da Ribeira, Cantareira, Largo da Fontinha, Bairro do Cerco e no Bloco Municipal da Rua Duque de Saldanha[5]. No ano seguinte, em 1966, o número de concorrentes continuou reduzido, com apenas seis cascatas construídas por Francisco Fonseca Dias da Silva, na Rua das Taipas; Alberto Silva Loureiro na Rua Luz Soriano, Bloco Municipal da Rua Duque de Saldanha, Bairro dos CTT, Ribeira e Passeio Alegre.

Nos anos seguintes, este panorama não viria a sofrer grandes alterações, podendo indiciar um desinteresse dos construtores e das comunidades que alguns autores, como Júlio Couto e Hélder Pacheco, contrariam. O primeiro contrapõe que nesse período se faziam “imensas cascatas”, geralmente anónimas porque os seus autores “estavam-se nas tintas para o concurso”. Uma indiferença que justifica com a desconfiança relativamente à formalidade dos organismos públicos, junto de pessoas para quem a construção da cascata era, essencialmente, afectiva e pessoal[6]. Para Hélder Pacheco existiu um declínio efectivo desta tradição, não por desinteresse dos portuenses, mas como consequência dos processos de realojamento e destruição das comunidades que residiam no centro da cidade[7]. Outros investigadores justificam também a indiferença dos construtores de cascatas como uma consequência das regras impostas pelo regulamento que, associado à rigidez do júri, constituiu um foco permanente de incompreensão para a generalidade dos construtores de cascatas que não se reviam nas normas impostas de cima para baixo[8]. No ano de 1967 concorreram novamente seis cascatas: cascata da Rua das Taipas, cascata do Bloco Habitacional da Rua Duque de Saldanha, a Cascata da Rua da Azenha, a Cascata de Miragaia e a Cascata da Cantareira. Após a visita e avaliação das cascatas concorrentes, o júri deliberou não atribuir o primeiro prémio, em virtude de nenhuma delas apresentar o que consideravam ser “o respeito rigoroso pela tradição das cascatas sanjoaninas (…)”.

As considerações tecidas na acta lavrada no dia 28 de Junho de 1967 são testemunho de um rigor que, à luz das actuais teorias do Património, seriam consideradas cerceadoras da liberdade criativa dos construtores e do dinamismo da tradição: “(…) a cascata da Rua das Taipas apresentou o maior rigor com a tradição popular, merecendo por isso os maiores louvores, mas a sua manufactura e localização num portal são modestas. A cascata da Rua da Azenha apresenta uma notável monumentalidade com figuras animadas, óptimo enquadramento e decerto gastos avultados na sua elaboração, mas está fora da tradição popular, o que o júri lamenta, por ver tanto esforço não ser melhor aproveitado na defesa das verdadeiras tradições do S. João no Porto” [9].

Em conformidade com o espirito da época, a defesa das tradições era sinónimo de cristalização e institucionalização, impondo em nome da tradição regras e normas de construção nas quais os praticantes não se reviam. A formalidade do regulamento e a rigidez do júri procuravam formatar uma tradição que, como tantas outras, resultava do dinamismo proporcionado pela informalidade das suas normas e por um permanente adicionar de novos elementos, sejam antigos e contemporâneos, eruditos e tradicionais, que convivem na cascata em descontraída e anárquica anacronia.

Uma carta enviada à Comissão de Festas de São João por Alberto Pinto Saraiva, no ano de 1978, constitui um testemunho precioso dos “melindres” existentes. Nessa carta, o autor aponta as desclassificações de que foi alvo, por colocar na cascata um patinho de plástico e, em outra ocasião, um automóvel de alumínio, confirmando o desinteresse de muitos construtores com o concurso, bem como a sua própria desilusão com a edição desse ano: ”É verdade que, por motivos que não conheço, talvez melindres, surgiu um certo desinteresse e o número de concorrentes diminui mantendo-se as abencerragens[10]. As queixas terão sido ouvidas, pois nesse ano o júri recomendou à Comissão de Festas a redacção de um novo regulamento, onde se encontravam contempladas algumas das sugestões apresentadas por Alberto Pinto Saraiva[11].

Concurso de Cascatas Concorrentes

A participação no concurso de cascatas manteve-se reduzida até ao final dos anos 90 do século XX, mas em nenhum momento se poderá afirmar que esta tradição esteve em risco. Uma perspectiva de longo prazo permite vislumbrar que, embora o número de construtores se mantivesse reduzido, as desistências ocorridas, por vontade própria ou motivos de força maior, foram sempre compensadas com o aparecimento de novos concorrentes[12].

Os anos oitenta indiciam um novo olhar sobre as cascatas de São João a avaliar pelo destaque que merecem na imprensa portuense. Abundam descrições, fotografias e os seus autores são exaltados, às vezes com algum exagero, como defensores das boas tradições tripeiras ameaçadas pelo esquecimento[13].

O regulamento do concurso seria novamente alterado durante a década de 90, como resultado de um olhar contemporâneo e menos paternalista sobre a prática. O regulamento, que irá vigorar até à primeira década do novo milénio, trouxe liberdade criativa aos construtores, incluindo até uma nova categoria destinada aos concorrentes infanto-juvenis. Assim, foi possível promover a participação de estabelecimentos de ensino de toda a cidade que, dessa forma, deram a conhecer aos mais novos a construção de cascatas de São João[14]. É nessa linha que nascem vários projectos educativos pioneiros, como o “Recriar o Porto Tradicional”[15] (2000) que recuperou a memória das cascatas de São João e o património cultural que lhe está associado enquanto recurso educativo, e ao qual muitos docentes da cidade dariam continuidade nos anos seguintes.

Na primeira década do século XXI o número de cascatas participantes no concurso aumenta em quantidade e qualidade, como o testemunham as actas do júri nesse período. Antigos construtores, como António Vieira de Araújo e José Marinho (Carvalhido), ou José Manuel Silva Lopes (Campanhã), João Alves Pereira da Costa (Rua da Corticeira), mas também muitos outros que não é possível citar aqui, prosseguem a sua actividade na primeira década do novo milénio. A estes juntam-se novos autores com novos elementos, ideias e técnicas, que erguem ano após anos cascatas sempre diferentes com um forte cunho autoral, como a Associação de Moradores da Lomba, no Bonfim, Filipe Oliveira em Campanhã, Orlando Moreira no Viso, o grupo liderado por João Barros no Clube dos Colaboradores da AXA/AGEAS ao Campo Alegre, Maria Manuela Silva Dias, na Ordem dos Médicos (Paranhos), Maria José Santos Costa, na Rua do Nevala, Henrique dos Reis Teixeira, no Bairro do Cerco, Joaquim Correia, na Junta de Freguesia de Santo Ildefonso e Fundação José Rodrigues,  António Florêncio Freitas Cardoso na Rua de Camões, António Aires no Clube dos Fenianos Portuenses e tantos outros que continuam a manter viva esta tradição portuense.

Ontem como hoje, as tradições populares sobrevivem num equilíbrio precário entre a autenticidade conferida pelos praticantes e a apreciação externa que as legitima e explora. À semelhança da generalidade do património cultural imaterial, o futuro das cascatas de São João, no Porto, permanece incerto, pois como nos recorda David Lowenthal: o equilíbrio entre preservação e perda é sempre ténue e dependente de factores que escapam ao nosso controlo[16].

Os defeitos, melindres e injustiças que os concorrentes ainda hoje reclamam, bem como a sua presença discreta no Programa das Festas da Cidade, não questionam o papel essencial que esta iniciativa desempenha há várias décadas na salvaguarda deste património dos portuenses. Um contributo que se traduz na promoção da tradição sanjoanina, na criação de registos documentais e na transmissão intergeracional através de meios formais e informais, incentivando novos e velhos a exercer a sua liberdade criativa na construção de cascatas de São João.

 

[1] CHAVES, L. (1961). As Cascatas do S. João do Porto. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, 24, 240-251.

[2] JN. (1947/06/20). Festas da Cidade – Concurso de Cascatas, Jornal de Notícias, p. 3.

[3] JN. (1947/06/20). Festas da Cidade – Concurso de Cascatas, Jornal de Notícias, p. 3.; JN. (1947/06/24). Os Santos de Junho. Jornal de Notícias,, 3.

[4]  PACHECO, H. (2005). O Livro do S. João (Vol. 2). Porto: Edições Afrontamento.

[5] JN. (1965/06/23). Festejos Sanjoaninos no Porto, Jornal de Notícias, p. 3.; JN. (1965/06/24). S. João Noite do Povo, Jornal de Notícias, p. 2.

[6] PISCO, L. M. (2013). Entrevista a Júlio Couto. Vídeo, 33’13

[7] PISCO, L. M. (2013). Entrevista a Hélder Pacheco. Vídeo, 44’44

[8] PISCO, L. M. (2014). As Cascatas de S. João – Cultura Popular e Património Cultural Imaterial na Cidade do Porto., Universidade do Porto, Porto.

[9] Ibidem

[10] bidem

[11] PACHECO, H. (2005). O Livro do S. João (Vol. 2). Porto: Edições Afrontamento.

[12] PISCO, L. M. (2014). As Cascatas de S. João – Cultura Popular e Património Cultural Imaterial na Cidade do Porto., Universidade do Porto, Porto.

[13] BARROSO, E. P. (1981/06/22). Cascateiros quem o Salva? Cascatas fazem parte do imaginário da cidade, reportagem, Jornal de Notícias, p. 36; BARROSO, E. P. (1981/06/23). Cascateiros quem o Salva? Tanoeiro há 40 anos – Fazer bonecos de Barro é a paixão da sua vida». Jornal de Notícias, Jornal de Notícias, p. 36; JN. (1980, 1980/06/26). Cascatas de S. João, prémios atribuídos, Jornal de Notícias, p. 14; JN. (1980/06/18). Cascata Monumental no Posto de Turismo, Jornal de Notícias, p. 9; JN. (1980/06/22). Concurso de cascatas – Tradição que se mantém, Jornal de Notícias, p. 10; JN. (1981/06/25). Nas Cascatas de S. João nova vitória dos Portuenses, Jornal de Notícias, p. 8;  BARROSO, E. P. (1981/06/24, 1981/06/24). Cascateiros quem o Salva? Arte Sem continuadores resiste com dificuldade, Jornal de Notícias, p. 36.

[14] FERREIRA, L. (1993/06/24). A Fazer cascatas há mais de vinte anos, Jornal de Notícias, p. 13; JN. (1992/06/29). Na primária da Sé, há bons artistas, Jornal de Notícias, p. 8; JN. (1994/06/23). Cascata na Escola, Jornal de Notícias, p. 10; JN. (1994/06/26). Montras e Cascatas em busca de um prémio, Jornal de Notícias, p. 9; JN. (1995/06/24). As cascatas que ainda temos, Jornal de Notícias, p. 9; JN. (1995/06/28). Escola de Gomes Teixeira ganha concurso das cascatas, Jornal de Notícias, p. 9; JN – VILAS, J. (1995/06/21). Juventude adere em força às Cascatas de S. João, Jornal de Notícias, p. 9; JN – VILAS, J. (1997/06/26). Catorze cascatas hoje em exame – Miúdos e adultos dão largas aos sonhos, Jornal de Notícias, pp. In Pacheco, Hélder. O Livro do S. João II. Porto Edições Afrontamento, 2004, p.2289.

[15] LEITE, E. (2000). Recriar o Porto Tradicional – Um projeto interescolar. Porto: Fundação para o Desenvolvimento do Vale de Campanhã;  AAVV. (2001). A Escola à Descoberta do Porto (Vol. II). Porto: Câmara Municipal do Porto/Pelouro da Educação.

[16] LOWENTHAL, D. (1988). The Past is a Foreign Country. Cambridge: Cambridge University Press.p.363

 

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